Campinas — Na Avenida Albert Einstein, o prédio da incubadora Cotuca abriga 38 startups. Três delas nasceram de patentes da Unicamp nos últimos dois anos. O número parece modesto para quem lê releases de fundos de investimento — mas, para quem conhece o caminho entre laboratório e CNPJ, é quase um milagre burocrático.

"A gente celebra quando uma empresa sobrevive cinco anos", diz Fernanda Okada, gestora de transferência tecnológica da universidade. "Não quando capta série A no Vale do Silício." A frase resume o tom do ecossistema campineiro: pragmático, cansado de hype, orgulhoso de sobrevivência.

Os números e o que eles escondem

Segundo levantamento da Associação Campinas Inova, a região metropolitana abriga 120 startups de base tecnológica, 14 incubadoras e seis fundos de venture capital com foco em deep tech. Em 2025, spin-offs unicampinas captaram R$ 340 milhões — recorde regional.

O que os agregados não mostram: tempo médio de 31 meses entre depósito de patente e contrato de licenciamento; taxa de abandono de 40% entre projetos aprovados em editais de pré-incubação; e concentração em agritech, saúde e engenharia de materiais — setores com mercado comprador já estruturado.

História de um spin-off que demorou

Em 2019, o engenheiro químico Paulo Vilela desenvolveu um revestimento antibacteriano para embalagens alimentícias no Laboratório de Polímeros. A patente saiu em 2021. A empresa só abriu em 2024, depois de rodada de R$ 4 milhões com fundo local e parceria com cooperativa de leite do interior.

"Não faltava tecnologia. Faltava advogado que entendesse PI universitária, contador que aguentasse fluxo de caixa zero e cliente piloto disposto a testar por 18 meses", resume Vilela. Hoje a BioLac emprega 23 pessoas em Sumaré — não em Campinas, por custo de galpão.

Spin-off não é evento. É processo — e no Brasil o processo ainda pune quem não tem rede.

Quem fica de fora

O ecossistema elogia diversidade, mas os dados internos das incubadoras mostram perfil recorrente: homens, formação em engenharia, acesso prévio a orientadores com experiência em patentes. Mulheres e pesquisadores de ciências humanas e biológicas aparecem menos nos quadros societários — não por falta de ideias, dizem entrevistadas, mas por barreiras de tempo e cuidado.

A Unicamp criou em 2025 o programa Spin-off Acessível, com bolsas para empreendedores em licença-maternidade e mentoria jurídica gratuita nos primeiros 12 meses. Ainda é cedo para medir impacto, mas 11 projetos entraram na primeira turma.

Além do campus

Prefeitura e Sistema S investem em parques tecnológicos e eventos como a Semana Campinas Inova. O discurso oficial fala em "cidade do conhecimento". Na prática, moradores do Jardim do Lago — bairro vizinho ao campus — reclamam de aluguel disparado e comércio deslocado para perfil de estudante e executivo de startup.

Para Tiago Moreira, que acompanha o ecossistema há oito anos como jornalista, a pergunta relevante não é se Campinas é o Vale do Silício brasileiro. É se consegue manter o modelo sem reproduzir exclusões que já conhecemos em outros polos.

"O interior inovou quando ninguém olhava", diz. "Agora que olham, vale perguntar: inovação para quem?"