Porto de Galinhas — Mariana Costa desce do barco com duas mochilas: uma com equipamento de mergulho, outra com formulários úmidos. A maré está baixa; os corais jovens que ela plantou há oito meses aparecem como manchas alaranjadas sob a superfície. "Sobreviveram 60%", diz, sem entusiasmo performático. "No ano passado foi 40%. Progresso, não vitória."
Com 41 anos, doutora em Biologia Marinha pela UFPE, Mariana lidera o projeto Recifes Vivos, parceria entre universidade, pescadores artesanais e o poder público municipal. O objetivo é restaurar trechos degradados do costão pernambucano — não para turismo de cartão-postal, mas para recuperar habitat de peixes e proteger o manguezal vizinho.
Começo no mangue
A trajetória não foi linear. Mariana cresceu em Recife, filha de professora e pescador amador. Entrou na universidade querendo estudar golfinhos; um estágio no mangue de Itapissuma mudou o foco. "Vi que o problema não era falta de espécie bonita — era esgoto, dragagem e gente sem voz nas decisões."
Na pós-graduação, passou seis meses na Austrália aprendendo técnicas de cultivo de coral. Voltou com entusiasmo — e choque cultural. "Lá tinham orçamento e escala. Aqui tinhamos maré, lei obscura e prefeito que queria foto antes da ciência estar pronta."
Método e parcerias
O Recifes Vivos usa fragmentos de coral resistentes a calor, fixados em estruturas de concreto modular projetadas com engenheiros da UFRPE. Pescadores da associação local monitoram temperatura e presença de predadores — recebem por jornada, não por "resultado biológico", decisão deliberada para não distorcer relatos.
Restaurar não é consertar vitrine. É negociar com o mar — e o mar não tem prazo de entrega.
Em 2024, o projeto ganhou notoriedade quando um vídeo de coral florescendo viralizou nas redes. Mariana recebeu convites para palestras corporativas e pressão de secretário estadual para "replicar em 12 cidades em um ano". Recusou o cronograma. "Escalar sem protocolo é plantar frustração", publicou em nota que a Bancada reproduz com sua autorização.
Discordâncias produtivas
Ela critica o "otimismo de impacto" de ONGs internacionais que prometem hectares restaurados sem publicar taxa de sobrevivência após 24 meses. E critica, com igual franqueza, colegas acadêmicos que desdenham de ação aplicada. "Ciência básica importa. Restauração também. O erro é hierarquizar ego."
Com pescadores, aprendeu a ouvir antes de medir. Um aviso sobre "água estranha" em março de 2025 antecipou em duas semanas dados de satélite sobre bloom de algas. "Eles são sensores há gerações. Eu só formalizo."
Próximos anos
Mariana negocia financiamento para expandir o projeto a Tamandaré, com condição de manter equipe local e publicar dados abertos. Planeja licença sabática em 2027 para escrever um livro — não de divulgação heroica, mas de falhas: tempestades que arrancaram estruturas, corais que branquearam, reuniões que não deram em nada.
"Se alguém quiser entrar na restauração marinha achando que vai salvar o mundo em cinco anos, melhor escolher outra profissão", diz, antes de voltar ao barco. "Se quiser aprender com o mar e com quem vive dele, a porta está aberta."